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Se você sabe o que precisa comer, por que continua comendo sem pensar?

há 7 horas
4 min de leitura


O que a Psicanálise pode nos ensinar sobre o comportamento alimentar e a dificuldade de mudar hábitos?


Você já se perguntou por que é tão difícil mudar um comportamento alimentar, mesmo quando sabemos exatamente o que deveríamos fazer?

Sabemos que precisamos comer mais verduras, reduzir os excessos, organizar nossas refeições e evitar comer por impulso. Conhecemos as consequências de uma alimentação desequilibrada. Muitas vezes, já passamos por inúmeras dietas.

E, mesmo assim, repetimos os mesmos comportamentos.


Será que o problema está realmente na falta de disciplina? Ou existe alguma coisa dentro de nós que ainda não conseguimos compreender?


Ao longo de mais destes anos de consultório, tenho observado que a relação das pessoas com a comida vai muito além da necessidade de nutrir o organismo.

Comemos para celebrar, para compartilhar, para lembrar, para acolher. Mas também podemos comer para aliviar a ansiedade, preencher momentos de solidão, enfrentar frustrações ou encontrar algum conforto depois de um dia difícil.

E é justamente nesse encontro entre a necessidade biológica e a vida emocional que a Psicanálise pode oferecer reflexões importantes.


A comida não alimenta apenas o corpo


Pense na sua infância.

Você se lembra de algum alimento preparado pela sua mãe ou pela sua avó que, até hoje, desperta uma sensação de carinho e proteção?

Talvez fosse um bolo recém-saído do forno, uma sopa quentinha ou aquele almoço de domingo com a família reunida.

Essas experiências mostram como os alimentos podem adquirir significados afetivos profundos.

Desde os primeiros momentos da vida, a alimentação está associada não apenas à sobrevivência, mas também ao cuidado, ao vínculo e às primeiras experiências de satisfação.

Na perspectiva psicanalítica, essas vivências podem participar da construção da nossa relação subjetiva com a comida.

Isso não significa que todo comportamento alimentar tenha uma origem inconsciente. Significa reconhecer que nem sempre comemos apenas porque sentimos fome.


Por que repetimos comportamentos que desejamos abandonar?


Uma das contribuições mais interessantes da Psicanálise é a reflexão sobre a repetição.

Quantas pessoas iniciam uma dieta na segunda-feira, seguem rigorosamente as orientações durante alguns dias e, diante de uma situação emocional difícil, retornam aos comportamentos anteriores?

Depois vem a culpa.

A promessa de recomeçar.

E, frequentemente, uma nova tentativa de controle alimentar ainda mais rígido.

Esse ciclo pode envolver diferentes mecanismos: restrição excessiva, estresse, hábitos aprendidos, alterações na percepção de fome e saciedade e, em algumas situações, conflitos emocionais.

A Psicanálise nos convida a investigar o significado dessas repetições, sem reduzir tudo à força de vontade.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas “por que comi isso?”, mas também “o que estava acontecendo comigo quando senti necessidade de comer?”


Quando a comida se transforma em conforto emocional


Imagine uma mulher que passou o dia inteiro resolvendo problemas.

Trabalhou, cuidou da família, administrou conflitos, cumpriu compromissos e, finalmente, chegou em casa.

Está cansada. Talvez frustrada. Talvez solitária.

Abre a geladeira.

Não necessariamente porque esteja com fome, mas porque procura alguns minutos de prazer, descanso ou alívio.

A comida pode oferecer uma sensação temporária de conforto.

Isso não é, por si só, um comportamento patológico. Comer também é prazer, cultura e afeto.

O problema aparece quando a alimentação se transforma na principal ou única estratégia disponível para lidar com emoções difíceis, especialmente quando provoca sofrimento e sensação de perda de controle.


O que a Psicanálise pode contribuir para a mudança alimentar?


A Psicanálise não substitui o acompanhamento nutricional e não deve ser apresentada como um tratamento de emagrecimento com eficácia garantida.

Sua contribuição está na possibilidade de ampliar a compreensão da relação entre a pessoa, sua história e seus comportamentos.


Em um processo terapêutico, algumas perguntas podem ganhar espaço:

  • O que a comida representa na minha vida?

  • Em quais situações sinto mais dificuldade de controlar meus impulsos?

  • Que emoções tenho dificuldade de reconhecer ou expressar?

  • Por que determinados padrões se repetem?

  • Como construí minha relação com o corpo, o prazer e a alimentação?


Essas reflexões podem favorecer o autoconhecimento e complementar estratégias nutricionais e psicológicas baseadas em evidências.


Depois dos 40 ou 50 anos, essa reflexão se torna ainda mais importante

Na maturidade, muitas mulheres enfrentam transformações simultâneas.

Mudanças hormonais, alterações da composição corporal, dificuldades com o sono, sobrecarga profissional, envelhecimento dos pais, saída dos filhos de casa e novas percepções sobre a própria identidade.

Nesse cenário, o comportamento alimentar pode sofrer modificações.


É importante compreender que o ganho de peso nessa fase não decorre exclusivamente das emoções. Alterações hormonais, redução da massa muscular, atividade física, medicamentos e outros fatores também precisam ser considerados.


Mas ignorar a dimensão emocional da alimentação pode significar deixar de compreender uma parte importante da experiência de cada mulher.


Talvez você não precise de mais uma dieta. Talvez precise compreender melhor sua relação com a comida.


Pela minha prática, acredito cada vez mais que orientar uma pessoa sobre o que comer é apenas uma parte do cuidado.

Precisamos compreender suas condições de vida, suas preferências, sua rotina, suas dificuldades e a história que construiu com a alimentação.

Uma mudança alimentar duradoura não depende apenas de informação. Depende também de condições reais para transformar hábitos, desenvolver novas habilidades e construir uma relação mais equilibrada com a comida.


Porque alimentar-se bem não é apenas aprender a escolher os alimentos. É também aprender a reconhecer as próprias necessidades.


E talvez uma das perguntas mais transformadoras que possamos fazer seja:


“De que estou realmente precisando neste momento: de comida, de descanso, de acolhimento ou de algo que ainda não consegui nomear?”


Dra. Marlise Potrick Stefani

Nutricionista | Mestre em Qualidade | Especialista em Alimentação e Gerontologia | Pós Graduada em Fitoterapia Clínica, Gastronomia, Psicologia, Geriatria e Gerontologia | Pós-Graduanda em Psicanálise 


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