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Exercício físico durante o tratamento do câncer: movimentar o corpo também é uma forma de cuidar da vida

há 11 minutos
6 min de leitura


Durante o tratamento oncológico, o movimento pode ser um importante aliado na redução da fadiga, na preservação da massa muscular e na recuperação da qualidade de vida. Mas como praticar exercícios com segurança?


Receber um diagnóstico de câncer transforma a rotina, os planos e, muitas vezes, a maneira como uma pessoa percebe o próprio corpo.

Durante o tratamento, é comum que surjam cansaço intenso, fraqueza muscular, alterações no apetite, dificuldades para dormir e uma sensação de perda de autonomia.

Diante desse cenário, uma pergunta aparece frequentemente no consultório: “Se estou fazendo quimioterapia ou radioterapia, devo descansar ou posso continuar me exercitando?”

A resposta pode surpreender: para muitos pacientes, manter o corpo em movimento, respeitando as condições clínicas e os limites individuais, é uma das estratégias mais importantes para preservar a saúde física e emocional durante o tratamento.

A ciência tem demonstrado que a atividade física adaptada pode contribuir para reduzir alguns efeitos do tratamento oncológico, melhorar a funcionalidade e favorecer a qualidade de vida.


E existe um aspecto que considero especialmente importante: o exercício não precisa representar desempenho ou superação de limites. Durante o tratamento, movimentar-se é, antes de tudo, uma forma de cuidado.


1. Menos fadiga: por que o movimento pode combater o cansaço?

A fadiga relacionada ao câncer é um dos sintomas mais frequentes durante o tratamento.

Diferentemente do cansaço habitual, ela pode persistir mesmo após uma noite de sono ou períodos prolongados de descanso. Muitos pacientes relatam dificuldade para realizar atividades simples, como caminhar, tomar banho ou preparar uma refeição.

Embora pareça contraditório, o repouso excessivo pode favorecer a perda de condicionamento físico, criando um ciclo de fraqueza e maior dificuldade para realizar as tarefas diárias.

A prática regular e adaptada de exercícios pode ajudar a interromper esse ciclo.

Entre os benefícios observados estão a melhora da capacidade cardiorrespiratória, da resistência física e da disposição para as atividades cotidianas.

Caminhadas leves, exercícios de mobilidade e atividades aeróbicas de baixa intensidade podem ser alternativas, dependendo da avaliação clínica.

O objetivo não é eliminar todo o cansaço, mas ajudar o paciente a recuperar, gradualmente, sua capacidade funcional.


2. Preservação da massa muscular: um cuidado essencial na oncologia

Um dos aspectos que mais merecem atenção durante o tratamento do câncer é a perda de massa muscular.

A doença, a inflamação sistêmica, a redução do consumo alimentar e os próprios tratamentos podem contribuir para a diminuição da força e da musculatura.

Em alguns pacientes, essa perda acontece mesmo quando o peso corporal permanece aparentemente estável.

É por isso que, na Nutrição Oncológica, não avaliamos apenas o número apresentado pela balança.

Precisamos compreender a composição corporal, a força muscular, a capacidade funcional e a qualidade da alimentação.

Os exercícios de resistência, quando autorizados e supervisionados, podem desempenhar um papel importante na preservação da musculatura.

Exercícios com faixas elásticas, pequenos pesos ou movimentos utilizando o próprio peso corporal podem ser incorporados progressivamente.

Entretanto, existe um ponto fundamental: o exercício e a nutrição precisam caminhar juntos.

Sem uma alimentação capaz de atender às necessidades energéticas e proteicas do paciente, os resultados podem ser limitados.


3. Exercício físico pode diminuir os efeitos colaterais do tratamento?

A atividade física não elimina os efeitos adversos da quimioterapia, radioterapia ou de outras terapias oncológicas.

Entretanto, pesquisas demonstram que programas de exercícios adequadamente planejados podem reduzir a intensidade de determinados sintomas e melhorar a capacidade de enfrentamento do tratamento.

Entre os benefícios possíveis estão:

  • Redução da fadiga relacionada ao câncer.

  • Preservação ou melhora da força muscular.

  • Melhora da capacidade cardiorrespiratória.

  • Redução de sintomas de ansiedade e depressão.

  • Melhora da qualidade do sono.

  • Maior independência nas atividades diárias.

  • Melhora da percepção de qualidade de vida.

É importante destacar que os resultados variam conforme o tipo de câncer, o tratamento realizado e as condições clínicas de cada paciente.

Nem todos os efeitos colaterais são prevenidos pelo exercício, e sintomas importantes devem sempre ser comunicados à equipe assistencial.


4. Quimioterapia e exercício físico: é seguro praticar?

Em muitos casos, sim.

As recomendações atuais de sociedades científicas internacionais reconhecem que pacientes oncológicos podem se beneficiar da atividade física durante e após o tratamento.

No entanto, não existe uma prescrição única para todos.

Pacientes com anemia importante, plaquetas muito baixas, infecções, febre, alterações cardíacas, metástases ósseas ou outras complicações podem necessitar de adaptações significativas ou suspensão temporária de determinados exercícios.

Por isso, antes de iniciar ou intensificar uma rotina, é fundamental conversar com o oncologista e, preferencialmente, contar com acompanhamento de um fisioterapeuta ou profissional de Educação Física capacitado para atender pacientes oncológicos.

O exercício precisa acompanhar a realidade do paciente, e não o contrário.


5. Qual é o melhor exercício durante o tratamento do câncer?

Caminhadas e atividades aeróbicas leves

Podem melhorar o condicionamento cardiorrespiratório e a disposição. O tempo e a intensidade devem ser ajustados à tolerância individual.

Exercícios de fortalecimento muscular

São especialmente importantes para preservar força, funcionalidade e autonomia, desde que respeitem as limitações clínicas.

Alongamento, mobilidade e exercícios respiratórios

Podem auxiliar no conforto, na mobilidade e na consciência corporal, conforme as necessidades de cada paciente.

As recomendações gerais para pacientes ao final do tratamento de câncer frequentemente incluem a progressão para 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana.

Entretanto, durante o tratamento ativo, essas metas podem não ser apropriadas para todos.

Para alguns pacientes, começar com poucos minutos de movimento, intercalados com descanso, já representa um avanço importante.

O melhor exercício é aquele que o paciente pode realizar com segurança, regularidade e acompanhamento adequado.


6. Nutrição e atividade física: uma combinação indispensável

Como nutricionista oncológica, considero fundamental reforçar que preservar a massa muscular exige mais do que estimular o movimento.

Durante o tratamento, muitos pacientes enfrentam alterações no paladar, náuseas, falta de apetite, dificuldades para mastigar ou engolir e desconfortos gastrointestinais.

Essas condições podem comprometer a ingestão de proteínas, calorias e outros nutrientes essenciais.

O acompanhamento nutricional individualizado permite identificar riscos precocemente e estabelecer estratégias para preservar o estado nutricional.

Entre os principais cuidados estão garantir ingestão energética e proteica adequada, acompanhar as mudanças de peso e composição corporal, prevenir a desnutrição e adaptar a alimentação aos sintomas do tratamento.

Em determinadas situações, também pode ser necessário utilizar suplementos nutricionais específicos, sempre com indicação profissional.

A integração entre nutricionista, oncologista, fisioterapeuta e demais profissionais da equipe oferece uma abordagem mais completa e segura.


7. O exercício físico também cuida da saúde emocional

O tratamento oncológico não afeta apenas o corpo.

O medo, a ansiedade, as mudanças na aparência e a interrupção das atividades habituais podem comprometer profundamente o bem-estar emocional.

Para muitas pessoas, conseguir realizar uma pequena caminhada ou recuperar movimentos antes considerados simples representa muito mais do que um benefício físico.

Representa a possibilidade de recuperar autonomia, confiança e participação na própria rotina.

A atividade física pode contribuir para melhorar o humor, reduzir sintomas de ansiedade e favorecer o sono.

Mas é importante evitar transformar o exercício em mais uma cobrança.

Existirão dias em que o descanso será necessário. E respeitar esses momentos também faz parte do cuidado.


8. O que realmente importa: movimento com segurança e acolhimento

Depois de mais de uma década acompanhando pacientes oncológicos, aprendi que cada tratamento tem sua história.

Alguns pacientes conseguem manter boa parte de suas atividades habituais. Outros enfrentam limitações importantes e precisam reconstruir sua capacidade funcional lentamente.

Não existe uma única trajetória de recuperação.

Por isso, o cuidado precisa ser individualizado, humanizado e integrado.

Na Nutritécnica Clínica Integrativa, acreditamos na importância de olhar para o paciente em sua totalidade, considerando não apenas a doença, mas também suas necessidades nutricionais, físicas e emocionais.

A atuação conjunta da Nutrição Oncológica e da Fisioterapia pode contribuir para uma assistência mais completa, especialmente quando existem perda muscular, fadiga, dificuldades de mobilidade ou necessidade de reabilitação.


Conclusão: durante o tratamento, cada movimento pode fazer diferença

O câncer pode modificar temporariamente a relação de uma pessoa com o próprio corpo.

Mas, sempre que houver condições clínicas, preservar o movimento pode ser uma maneira de manter a autonomia, a força e a qualidade de vida.

Não se trata de correr mais, levantar mais peso ou cumprir metas de desempenho.

Trata-se de respeitar o corpo, compreender suas necessidades e oferecer a ele as melhores condições possíveis para atravessar o tratamento.

Porque cuidar de quem enfrenta o câncer é também ajudar essa pessoa a preservar aquilo que continua sendo essencial: sua força, sua dignidade e sua qualidade de vida.


Giovanna Potrick

Nutricionista Clínica e Oncológica | CRN-2 12.350

Mestre em Alimentação, Nutrição e Saúde pela UFRGS

Pós-graduada em Nutrição Oncológica pelo IEP/HMV

Aperfeiçoamento em Onco-Hematologia pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre

Atendimento na Nutritécnica Clínica Integrativa, em São Leopoldo, Porto Alegre e atendimento domiciliar conforme disponibilidade.


Está passando por um tratamento oncológico ou acompanhando alguém que está?

O acompanhamento nutricional especializado pode ajudar a preservar a força, prevenir complicações nutricionais e melhorar a qualidade de vida durante essa jornada.

 
 
 

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