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Câncer, massa muscular e alimentação: por que preservar os músculos pode fazer diferença durante o tratamento oncológico?

há 6 minutos
4 min de leitura

Você sabia que uma pessoa com câncer pode estar perdendo músculos mesmo sem emagrecer?

Quando pensamos em alimentação durante o tratamento do câncer, uma das primeiras preocupações costuma ser a perda de peso.

Mas existe uma questão igualmente importante, que muitas vezes passa despercebida: a perda de massa muscular.

Um paciente pode manter praticamente o mesmo peso na balança e, ainda assim, apresentar redução de músculos, diminuição da força e alterações na composição corporal.


Na Nutrição Oncológica, sabemos que o número mostrado na balança não conta toda a história.

Preservar a massa muscular pode contribuir para a capacidade funcional, a autonomia e a qualidade de vida durante o tratamento.


Por que o câncer pode provocar perda muscular?

O câncer é uma doença complexa e seus efeitos sobre o organismo vão muito além do órgão afetado.

Dependendo do tipo e do estágio da doença, o organismo pode apresentar alterações inflamatórias, metabólicas e hormonais que interferem no aproveitamento dos nutrientes e na manutenção dos tecidos musculares.

Além disso, tratamentos como quimioterapia, radioterapia e cirurgia podem provocar efeitos adversos que dificultam a alimentação e a atividade física.

Entre eles estão a falta de apetite, náuseas, alterações no paladar, fadiga, dificuldades para mastigar ou engolir e redução da disposição.

Quando essas condições se somam, o risco de perda muscular pode aumentar.


Sarcopenia e caquexia: duas condições que merecem atenção

A sarcopenia é caracterizada pela redução da força muscular associada a alterações na quantidade ou qualidade dos músculos. Embora seja frequentemente relacionada ao envelhecimento, também pode ocorrer em pessoas com doenças crônicas, incluindo o câncer.

Já a caquexia associada ao câncer é uma síndrome metabólica complexa, caracterizada principalmente pela perda progressiva de músculo esquelético, com ou sem perda de gordura, e que não pode ser completamente revertida apenas com alimentação convencional.

Essas condições não são sinônimas, mas ambas exigem identificação e acompanhamento.


A perda muscular não deve ser considerada uma consequência inevitável do câncer. Reconhecer os sinais precocemente permite planejar intervenções adequadas, mesmo quando não é possível evitar completamente essa perda.


O papel das proteínas na alimentação oncológica

As proteínas participam da manutenção e recuperação dos tecidos, da resposta imunológica e de diversas funções do organismo.

Durante o tratamento oncológico, as necessidades proteicas podem estar aumentadas, dependendo da condição clínica.

Ovos, peixes, carnes, leite, iogurtes, queijos, leguminosas e outras fontes proteicas podem integrar o planejamento alimentar, respeitando preferências, sintomas e restrições individuais.

Em determinadas situações, suplementos nutricionais orais podem ser necessários para complementar a ingestão.

Entretanto, não existe uma quantidade universal de proteínas adequada para todos os pacientes.

A prescrição precisa considerar peso, composição corporal, função renal, estado nutricional, tipo de tratamento e capacidade de ingestão alimentar.

Mais importante do que simplesmente recomendar que o paciente coma mais proteínas é garantir que ele receba a quantidade de energia e nutrientes de que realmente necessita.


E quando o paciente não consegue comer?

Essa é uma das situações mais delicadas da Nutrição Oncológica.

Alguns pacientes relatam que os alimentos perderam o sabor. Outros desenvolvem aversão a determinados cheiros, sentem saciedade precoce ou apresentam desconfortos digestivos.

Nesses momentos, insistir para que a pessoa coma grandes volumes pode aumentar ainda mais o sofrimento.

O cuidado nutricional precisa ser individualizado.

Modificar texturas, fracionar refeições, aumentar a densidade energética e proteica dos preparos e adaptar temperaturas e sabores são algumas estratégias possíveis.

Em casos específicos, pode ser necessário recorrer à terapia nutricional enteral ou parenteral, conforme avaliação da equipe assistencial.

A alimentação precisa nutrir, mas também respeitar os limites e a experiência de quem está em tratamento.


Exercício físico também faz parte dessa conversa

Preservar músculos não depende exclusivamente da alimentação.

Quando clinicamente possível, a prática orientada de atividade física, especialmente exercícios de resistência muscular, pode contribuir para a manutenção da força, da funcionalidade e da qualidade de vida.

A indicação deve considerar o estado clínico, a presença de metástases ósseas, alterações hematológicas, fadiga e outras condições que exijam adaptações.

Nutrição, fisioterapia, exercício físico e acompanhamento médico podem atuar de forma integrada.

O objetivo não é exigir desempenho físico de alguém que está enfrentando uma doença, mas ajudá-lo a preservar suas capacidades com segurança.


O acompanhamento nutricional deve começar antes da perda de peso

Uma das mensagens mais importantes que gostaria de compartilhar é que não precisamos esperar o paciente emagrecer para iniciar o acompanhamento nutricional.

A avaliação precoce pode identificar riscos que ainda não são visíveis.

Histórico alimentar, sintomas, evolução do peso, avaliação da força muscular e métodos apropriados de composição corporal são ferramentas que auxiliam a compreender o estado nutricional.

Na prática clínica, cada informação contribui para decisões mais individualizadas.

Afinal, dois pacientes com o mesmo diagnóstico podem apresentar necessidades completamente diferentes.


Cuidar da alimentação também é cuidar da autonomia

Ao longo de mais de uma década trabalhando com Nutrição Oncológica, aprendi que o cuidado vai muito além de calcular calorias ou prescrever um plano alimentar.

Cada paciente chega com sua história, seus receios, seus hábitos e suas expectativas.

Alguns desejam recuperar o prazer de comer. Outros querem voltar a caminhar, trabalhar, brincar com os netos ou simplesmente ter mais disposição para as atividades cotidianas.

A alimentação não substitui o tratamento oncológico, mas pode ser uma importante aliada para apoiar o estado nutricional, o bem-estar e a qualidade de vida.


Preservar músculos é também buscar preservar independência, movimento e possibilidades de viver melhor.

E esse cuidado merece começar o quanto antes.


Giovanna Potrick Stefani

Nutricionista Clínica e Oncológica — CRN-2 12.350

Mestre em Nutrição, Alimentação e Saúde pela UFRGS

Pós-graduada em Nutrição Oncológica pelo IEP/HMV

Mais de 11 anos de atuação na Nutrição Clínica e Oncológica

 
 
 

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