O que as pessoas que chegam bem aos 80 anos fazem diferente?

O que podemos aprender com homens e mulheres que continuam ativos, elegantes, criativos e cheios de projetos depois dos 80 anos? A ciência da longevidade revela que envelhecer bem não é apenas uma questão de genética ou sorte. Nossas escolhas ao longo da vida também fazem diferença.
Você já parou para observar algumas pessoas que chegaram aos 80, 85 ou até 90 anos e continuam demonstrando entusiasmo pela vida?
Elas fazem planos, trabalham, viajam, convivem com amigos, aprendem coisas novas e, principalmente, não parecem ter desistido de viver plenamente.
Quando observamos personalidades como Helen Mirren, Mick Jagger, Betty Faria e tantas outras, uma pergunta surge naturalmente: o que essas pessoas fazem de diferente?
É claro que a genética, as condições de vida, o acesso aos cuidados de saúde e até a sorte têm seu papel. E não podemos conhecer a saúde de alguém apenas por sua aparência ou pela imagem que apresenta publicamente.
Mas a ciência já identificou hábitos e comportamentos que contribuem para preservar a autonomia, a capacidade física e a qualidade de vida durante o envelhecimento.
Depois de mais de 40 anos trabalhando com nutrição e saúde, tenho uma convicção cada vez mais forte: não basta acrescentar anos à vida. Precisamos acrescentar vida aos nossos anos.
A idade está no documento. A vitalidade se constrói ao longo da vida.
Há pessoas que aos 60 anos já apresentam importantes limitações funcionais. Outras chegam aos 80 preservando independência e participação ativa na sociedade.
Isso não significa que uma pessoa tenha feito tudo certo e a outra, tudo errado. O envelhecimento é um processo complexo, influenciado por fatores biológicos, sociais, econômicos e ambientais.
Na gerontologia, falamos muito sobre a diferença entre a idade cronológica, aquela que contamos a cada aniversário, e o envelhecimento biológico, relacionado às mudanças que acontecem em nossos órgãos e sistemas.
Embora não exista uma medida única e definitiva da idade biológica, sabemos que alguns fatores modificáveis podem influenciar nossa trajetória de saúde.
E é justamente sobre eles que quero conversar hoje.
1. Elas não deixam de se movimentar
Se existe um hábito que aparece constantemente nas pesquisas sobre envelhecimento saudável, é a atividade física regular.
E não estou falando apenas de frequentar uma academia.
Estou falando de caminhar, subir escadas, cuidar do jardim, dançar, fazer pilates, praticar musculação e continuar utilizando o corpo nas atividades cotidianas.
Com o passar dos anos, perdemos progressivamente massa e força muscular, especialmente quando somos sedentários.
Essa perda pode comprometer o equilíbrio, a mobilidade e a capacidade de realizar tarefas simples, como levantar de uma cadeira ou carregar compras.
A boa notícia é que os músculos continuam respondendo ao treinamento, inclusive em idades avançadas.
A Organização Mundial da Saúde recomenda, para pessoas idosas, atividades aeróbicas regulares, exercícios de fortalecimento muscular pelo menos duas vezes por semana e atividades que trabalhem equilíbrio e capacidade funcional.
O músculo não é apenas uma questão estética. É uma reserva de independência para o futuro.
2. Elas compreendem que alimentação é investimento em saúde
Como nutricionista, considero este um dos pilares mais importantes da longevidade saudável.
Com o envelhecimento, nossas necessidades nutricionais se modificam. Podemos apresentar redução do apetite, alterações do paladar, dificuldades de mastigação e mudanças na composição corporal.
Ao mesmo tempo, precisamos preservar a massa muscular, a saúde óssea, a imunidade e o funcionamento adequado do organismo.
Por isso, não basta simplesmente comer menos.
É fundamental comer melhor.
Uma alimentação favorável à longevidade inclui variedade de verduras, legumes, frutas, feijões, cereais integrais, azeite de oliva, oleaginosas e fontes adequadas de proteína.
As proteínas merecem atenção especial, pois contribuem para a manutenção dos músculos, sobretudo quando associadas ao exercício físico.
Também precisamos observar nutrientes como cálcio, vitamina D, vitamina B12 e fibras, conforme as necessidades individuais.
Padrões alimentares como a dieta mediterrânea estão associados, em estudos populacionais, a melhores desfechos cardiovasculares e metabólicos.
Mas não precisamos morar no Mediterrâneo para comer bem.
Nosso tradicional arroz com feijão, acompanhado de legumes, verduras e uma boa fonte de proteína, pode fazer parte de uma alimentação equilibrada e nutritiva.
A alimentação que favorece a longevidade não precisa ser complicada. Precisa ser adequada, variada e possível de manter.
3. Elas continuam exercitando o cérebro
Aprender não tem prazo de validade.
Ler, estudar, aprender um idioma, tocar um instrumento, participar de atividades culturais e desenvolver novas habilidades são formas de manter a mente estimulada.
O envelhecimento cerebral é natural, mas o declínio cognitivo incapacitante não deve ser considerado inevitável.
Pesquisas indicam que fatores como escolaridade, atividade física, controle da pressão arterial, saúde auditiva e participação social estão relacionados ao risco de comprometimento cognitivo.
A estimulação intelectual faz parte desse conjunto de cuidados.
E aqui faço uma reflexão pessoal: acredito que precisamos continuar curiosos, independentemente da idade.
Ter vontade de aprender algo novo é também uma maneira de continuar participando do mundo.
4. Elas cultivam vínculos e não abrem mão da convivência
Uma das descobertas mais relevantes dos estudos sobre longevidade é a importância das relações sociais.
O isolamento e a solidão persistentes estão associados a maiores riscos de problemas de saúde física e mental.
Por outro lado, vínculos afetivos, amizades, convivência familiar e participação comunitária podem contribuir para o bem-estar.
Não se trata de ter dezenas de amigos.
Trata-se de manter relações significativas.
Ter alguém com quem conversar, compartilhar uma refeição, celebrar uma conquista ou simplesmente dividir o silêncio pode fazer uma diferença enorme.
E isso vale para todas as idades.
Às vezes, na correria do cotidiano, investimos tanto tempo no trabalho e nas obrigações que esquecemos de cultivar as pessoas que fazem parte da nossa história.
A longevidade também se constrói à mesa, nas conversas, nos encontros e nos afetos.
5. Elas valorizam o sono e a recuperação do organismo
Dormir bem é uma necessidade biológica, não um luxo.
Durante o sono, ocorrem processos importantes para a consolidação da memória, regulação metabólica e recuperação física.
Com o envelhecimento, podem acontecer mudanças na arquitetura do sono, mas isso não significa que dormir mal deva ser aceito como algo normal.
Para a maioria dos adultos mais velhos, recomenda-se aproximadamente sete a oito horas de sono por noite, considerando as necessidades individuais.
Manter horários regulares, receber luz natural pela manhã, praticar atividade física e reduzir o consumo de cafeína no final do dia são medidas que podem favorecer o descanso.
Problemas persistentes de sono merecem avaliação profissional.
6. Elas encontram motivos para continuar fazendo planos
Quando observamos artistas que continuam participando da vida cultural depois dos 80 anos, percebemos algo interessante: a idade não precisa significar o encerramento dos projetos pessoais.
E isso não se aplica apenas às pessoas famosas.
Uma mulher de 82 anos que começa a pintar, um homem de 85 que cultiva sua horta, uma avó que aprende a utilizar novas tecnologias ou um casal que decide viajar são exemplos igualmente inspiradores.
Ter projetos, interesses e atividades significativas pode favorecer o bem-estar psicológico e a participação social.
Naturalmente, ninguém precisa estar produzindo o tempo inteiro para ter valor.
O propósito também pode estar nas pequenas coisas: cuidar de uma planta, acompanhar o crescimento dos netos, cozinhar, ouvir música ou participar de uma comunidade.
Envelhecer bem não significa fazer tudo o que fazíamos aos 30 anos. Significa encontrar maneiras de continuar vivendo com significado.
7. Elas cuidam da saúde antes que os problemas se agravem
A prevenção e o acompanhamento adequado das doenças crônicas fazem parte da longevidade saudável.
Controlar a pressão arterial, acompanhar a glicemia, avaliar o perfil lipídico, cuidar da saúde bucal, da visão e da audição, revisar medicamentos e manter a vacinação atualizada são medidas importantes.
A avaliação nutricional também merece atenção especial.
A perda de peso involuntária, a redução da força, a falta de apetite e a dificuldade para realizar atividades cotidianas podem indicar problemas que precisam ser investigados.
Na maturidade, nosso objetivo não deve ser apenas alcançar determinado número na balança.
Precisamos observar a composição corporal, a força muscular, a capacidade funcional e a qualidade de vida.
Afinal, qual é o segredo de chegar bem aos 80 anos?
Talvez o segredo seja compreender que não existe um único segredo.
A longevidade saudável é resultado de muitos fatores que interagem durante toda a vida.
A genética influencia, mas não determina tudo. O ambiente importa. As oportunidades importam. O acesso à saúde importa. E nossos hábitos também têm um papel fundamental.
Não existe garantia de que uma alimentação equilibrada, a prática de exercícios ou uma boa rotina de sono nos levarão aos 90 ou 100 anos sem doenças.
Mas existe um conjunto consistente de evidências mostrando que essas atitudes podem reduzir riscos, preservar funções e melhorar nossa qualidade de vida.
E há algo que considero especialmente importante: nunca é tarde para começar a cuidar melhor de si.
Uma pessoa de 60 anos pode iniciar musculação. Aos 70, pode melhorar a alimentação. Aos 80, pode trabalhar equilíbrio, fortalecer vínculos e descobrir novos interesses.
Cada fase oferece possibilidades diferentes.
Quando você pensa em si mesma aos 80 anos, como gostaria de estar?
Gostaria de caminhar com independência? Viajar? Brincar com os netos? Preparar suas próprias refeições? Encontrar os amigos? Continuar aprendendo?
Talvez a resposta não esteja em uma dieta milagrosa, em um suplemento da moda ou em alguma promessa de rejuvenescimento.
Talvez esteja nas escolhas que fazemos todos os dias, na forma como alimentamos nosso corpo, movimentamos nossos músculos, cuidamos da mente e cultivamos nossos relacionamentos.
Depois de tantos anos acompanhando pessoas em diferentes fases da vida, continuo acreditando que a verdadeira conquista não está apenas na quantidade de aniversários que celebramos, mas na qualidade da vida que conseguimos viver entre eles.
Porque chegar aos 80 anos é uma conquista. Mas chegar aos 80 com autonomia, vínculos, projetos e alegria de viver é uma possibilidade que merece ser cultivada desde agora.
E você, o que está fazendo hoje pela pessoa que deseja ser aos 80 anos?
Dra. Marlise Potrick Stefani
Nutricionista | Mestre em Qualidade | Especialista em Alimentação e Gerontologia | Pós Graduada em Fitoterapia Clínica, Gastronomia, Psicologia, Geriatria e Gerontologia | Pós-Graduanda em Psicanálise
@nutritecnica
@nutrimarlisestefani
@nutrilis.nutritecnica
@spanutrilis


.png)




Comentários