Diretrizes Brasileiras de Oncogeriatria 2026: um novo olhar sobre o câncer, o envelhecimento e a importância da Nutrição Oncológica

Envelhecer não significa perder a capacidade de enfrentar um tratamento oncológico. Significa, muitas vezes, precisar de um cuidado mais individualizado, que respeite a história, a autonomia e as condições de saúde de cada pessoa.
O envelhecimento da população brasileira representa uma das transformações demográficas mais importantes das últimas décadas. Vivemos mais, mas também convivemos com uma maior prevalência de doenças crônicas, entre elas o câncer.
É nesse contexto que as Diretrizes Brasileiras de Oncogeriatria – 2026 ganham relevância, trazendo para o centro da discussão a necessidade de integrar os conhecimentos da oncologia e da geriatria no atendimento às pessoas idosas com câncer.
A mensagem fundamental é clara: a idade cronológica, isoladamente, não é suficiente para determinar a capacidade de uma pessoa tolerar um tratamento oncológico.
Duas pessoas de 75 anos podem apresentar condições de saúde completamente diferentes. Enquanto uma mantém independência, força muscular e uma vida ativa, outra pode conviver com fragilidade, desnutrição, dificuldades de mobilidade e múltiplas doenças.
Por isso, oferecer o mesmo cuidado a ambas, considerando apenas a idade e o diagnóstico, pode significar ignorar necessidades importantes.
A oncogeriatria propõe justamente o contrário: conhecer profundamente a pessoa antes de definir, adaptar e acompanhar seu tratamento.
O que é oncogeriatria e por que ela se tornou tão importante?
A oncogeriatria é uma área interdisciplinar que integra conhecimentos da oncologia, geriatria e gerontologia para oferecer uma assistência mais adequada às pessoas idosas com câncer.
Seu objetivo não é simplesmente prolongar a sobrevida, mas equilibrar a efetividade do tratamento com a preservação da autonomia, da funcionalidade e da qualidade de vida.
Isso significa reconhecer que o sucesso terapêutico não deve ser medido exclusivamente pela resposta do tumor.
Também precisamos considerar questões fundamentais: o paciente consegue continuar realizando suas atividades? Mantém sua independência? Consegue alimentar-se adequadamente? Preserva sua mobilidade? Como está sua saúde emocional? Quais são suas prioridades?
Essas perguntas fazem parte de uma assistência verdadeiramente centrada na pessoa.
A Avaliação Geriátrica Ampla: conhecer o paciente além do diagnóstico
Um dos pilares da oncogeriatria é a Avaliação Geriátrica Ampla (AGA), uma abordagem multidimensional que permite identificar condições que podem interferir na segurança e na tolerância ao tratamento.
Essa avaliação contempla diferentes aspectos da saúde, incluindo:
Capacidade funcional e independência nas atividades cotidianas.
Estado nutricional e risco de desnutrição.
Massa muscular, força e mobilidade.
Cognição e saúde emocional.
Doenças associadas e uso de múltiplos medicamentos.
Risco de quedas e fragilidade.
Condições sociais, familiares e rede de apoio.
A avaliação permite reconhecer vulnerabilidades que nem sempre são identificadas nas consultas oncológicas convencionais.
Além disso, fornece informações para que a equipe multiprofissional desenvolva intervenções específicas, buscando reduzir complicações e preservar a funcionalidade.
O propósito não é excluir pacientes de tratamentos em razão da idade, mas oferecer condições para que cada pessoa receba o tratamento mais adequado à sua realidade.
Nutrição Oncológica: um dos pilares do cuidado à pessoa idosa com câncer
Na minha experiência clínica, acompanhando pacientes oncológicos ao longo de mais de uma década, observo como o estado nutricional pode influenciar profundamente a trajetória do tratamento.
A alimentação, nesse contexto, vai muito além da escolha de alimentos saudáveis.
O câncer e seus tratamentos podem provocar alterações metabólicas, redução do apetite, dificuldades para mastigar e engolir, mudanças no paladar, náuseas, fadiga e perda de peso.
Em pessoas idosas, essas alterações podem se somar às mudanças fisiológicas do envelhecimento, aumentando o risco de desnutrição e perda muscular.
Por isso, a avaliação nutricional deve fazer parte do cuidado desde o diagnóstico e continuar durante todo o tratamento oncológico.
Sarcopenia: quando a perda muscular ameaça a autonomia
A sarcopenia, caracterizada pela redução da força muscular associada à perda de quantidade ou qualidade muscular, merece atenção especial na oncogeriatria.
O envelhecimento já favorece alterações na composição corporal. Quando associado ao câncer, à inflamação, à redução da ingestão alimentar e à inatividade física, esse processo pode ser intensificado.
A perda muscular pode comprometer a mobilidade, aumentar o risco de quedas, reduzir a capacidade de realizar atividades cotidianas e dificultar a recuperação após intervenções terapêuticas.
Um aspecto importante é que a sarcopenia não ocorre apenas em pessoas magras.
Pacientes com sobrepeso ou obesidade também podem apresentar perda significativa de massa e força muscular, situação que pode passar despercebida quando a avaliação se limita ao peso corporal.
Por isso, acompanhar apenas o número indicado pela balança não é suficiente.
A avaliação da composição corporal, da força muscular, da ingestão alimentar e da funcionalidade contribui para identificar precocemente essas alterações.
Desnutrição: um risco que precisa ser identificado antes de se tornar evidente
A desnutrição relacionada ao câncer pode se desenvolver progressivamente e, muitas vezes, antes de alterações expressivas no peso.
A redução do apetite, a dificuldade de alimentação, a inflamação e os efeitos adversos do tratamento podem comprometer o consumo e a utilização de nutrientes.
Entre as possíveis consequências estão maior vulnerabilidade a complicações, pior recuperação funcional, redução da qualidade de vida e dificuldades para manter o tratamento planejado.
A intervenção nutricional precoce busca minimizar esses riscos.
Isso envolve avaliação individualizada das necessidades energéticas e proteicas, adequação da consistência dos alimentos quando necessário, manejo de sintomas e utilização de suplementos nutricionais orais ou outras modalidades de terapia nutricional quando clinicamente indicadas.
Não existe uma única dieta adequada para todas as pessoas idosas com câncer.
Existe uma estratégia nutricional construída a partir das necessidades, das condições clínicas e das possibilidades de cada paciente.
Proteínas, energia e preservação da massa muscular
Um dos desafios mais importantes da Nutrição Oncológica na pessoa idosa é garantir ingestão suficiente de energia e proteínas para contribuir com a manutenção dos tecidos corporais e da funcionalidade.
As necessidades nutricionais podem estar aumentadas em determinadas situações, especialmente diante de inflamação, perda de peso, cirurgias e tratamentos que comprometem a alimentação.
Entretanto, a quantidade de proteínas necessária deve ser individualizada, considerando fatores como função renal, estado nutricional, nível de atividade física e condições metabólicas.
Também é importante avaliar como essas proteínas estão distribuídas ao longo do dia e se o paciente consegue consumir as quantidades planejadas.
Em muitos casos, pequenas adaptações na alimentação, o enriquecimento nutricional das preparações e o acompanhamento frequente podem contribuir para melhorar a ingestão.
A nutrição, associada à atividade física adaptada e à reabilitação, quando indicadas, participa de uma estratégia integrada para preservar força, mobilidade e independência.
Fragilidade não é sinônimo de idade avançada
Outro conceito fundamental da oncogeriatria é a fragilidade.
Trata-se de uma condição caracterizada pela redução das reservas fisiológicas e da capacidade do organismo de responder a situações de estresse, como infecções, cirurgias e tratamentos antineoplásicos.
A fragilidade não deve ser confundida com o envelhecimento natural.
Uma pessoa de 85 anos pode apresentar boas condições funcionais, enquanto outra de 68 anos pode demonstrar vulnerabilidades importantes.
Reconhecer essas diferenças permite planejar intervenções mais adequadas.
O acompanhamento nutricional, a reabilitação física, a revisão de medicamentos e o suporte psicossocial podem contribuir para reduzir vulnerabilidades modificáveis.
O cuidado precisa ser contínuo, pois as condições do paciente podem mudar ao longo do tratamento.
O tratamento oncológico deve considerar a pessoa, não apenas o tumor
A evolução da oncologia trouxe avanços importantes nas possibilidades terapêuticas, incluindo cirurgias, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo.
Entretanto, a escolha de um tratamento para uma pessoa idosa exige uma avaliação que ultrapasse os critérios tradicionalmente relacionados ao tumor.
É necessário considerar benefícios esperados, riscos, comorbidades, capacidade funcional, fragilidade, preferências individuais e objetivos de vida.
Em alguns casos, intervenções de suporte podem melhorar as condições clínicas para o tratamento. Em outros, adaptações terapêuticas podem ser necessárias para equilibrar eficácia e segurança.
A participação do paciente nas decisões é essencial.
Preservar a autonomia também significa respeitar suas escolhas e compreender o que ele considera mais importante para sua qualidade de vida.
A importância da equipe multiprofissional
Nenhum profissional, isoladamente, consegue atender a todas as necessidades de uma pessoa idosa com câncer.
A oncogeriatria valoriza o trabalho integrado entre oncologistas, geriatras, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos, enfermeiros, fonoaudiólogos e outros profissionais, conforme as necessidades individuais.
Cada especialidade contribui para um objetivo comum: proporcionar um cuidado seguro, humanizado e capaz de preservar, sempre que possível, a independência e o bem-estar.
Na Nutrição Oncológica, essa integração é particularmente importante.
Um paciente que apresenta dificuldades para engolir pode precisar de acompanhamento fonoaudiológico. Aquele que perde força muscular pode se beneficiar de reabilitação física. Já alterações emocionais podem comprometer o apetite e a adesão ao tratamento, exigindo suporte psicológico.
Cuidar de forma integrada significa compreender que o organismo, as emoções e as condições de vida não funcionam separadamente.
Longevidade e câncer: precisamos falar sobre qualidade de vida
Durante muitos anos, o envelhecimento foi frequentemente associado à ideia de limitações inevitáveis.
Hoje sabemos que a idade, por si só, não determina o grau de independência, a capacidade funcional ou as possibilidades terapêuticas.
O aumento da expectativa de vida exige que a assistência à saúde acompanhe essa transformação.
Na oncologia, isso significa reconhecer que muitas pessoas idosas desejam continuar trabalhando, convivendo com a família, praticando atividades físicas, viajando e mantendo sua participação social.
O tratamento deve considerar essas expectativas.
A alimentação adequada, a preservação muscular, o movimento, a saúde emocional e o suporte familiar não são aspectos secundários. Eles integram a qualidade do cuidado.
Minha visão como nutricionista oncológica
Ao longo da minha trajetória profissional, tive a oportunidade de acompanhar pessoas em diferentes fases da vida e em diferentes momentos do tratamento oncológico.
Essa experiência reforçou uma convicção: não existem dois pacientes iguais, mesmo quando compartilham o mesmo diagnóstico.
Cada pessoa chega ao consultório trazendo uma história de vida, hábitos alimentares, condições clínicas, preocupações e expectativas.
No atendimento à pessoa idosa, esse olhar individualizado se torna ainda mais necessário.
Não basta prescrever uma dieta ou orientar o consumo de determinados nutrientes. É preciso compreender como essa pessoa vive, quais são suas dificuldades, o que consegue comer, como está sua força muscular e quais mudanças são realmente possíveis em sua rotina.
A Nutrição Oncológica precisa unir conhecimento científico, acompanhamento contínuo e sensibilidade para reconhecer as necessidades de cada indivíduo.
As Diretrizes Brasileiras de Oncogeriatria de 2026 reforçam a importância desse cuidado ampliado e nos convidam a olhar para o envelhecimento com mais responsabilidade, conhecimento e respeito.
Conclusão: tratar o câncer e preservar a vida em todas as suas dimensões
O futuro da oncogeriatria está na integração entre ciência, individualização terapêutica e cuidado humanizado.
A avaliação geriátrica, o acompanhamento nutricional, a prevenção da perda muscular e o trabalho multiprofissional são componentes importantes para oferecer uma assistência mais adequada à população idosa com câncer.
Mais do que acrescentar anos à vida, precisamos buscar condições para que esses anos sejam vividos com dignidade, autonomia e qualidade.
Porque a idade conta os anos vividos. Mas não deve, sozinha, definir as possibilidades de viver.
Giovanna Potrick
Nutricionista Clínica e Oncológica | CRN-2 12.350
Mestre em Nutrição, Alimentação e Saúde – UFRGS
Pós-graduada em Nutrição Oncológica – IEP/HMV
Nutritécnica Clínica Integrativa – São Leopoldo/RS


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