Verde e amarelo à mesa: as cores do Brasil também contam a história da nossa alimentação

No dia 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, o verde e o amarelo ganham as ruas, as bandeiras e as celebrações. Mas talvez exista outro lugar onde essas cores representem o nosso país de uma forma especialmente bonita: a nossa mesa.
Poucos países possuem uma diversidade de alimentos tão grande quanto o Brasil. Somos um território continental, com diferentes climas, culturas, influências e tradições culinárias. Da Amazônia ao Rio Grande do Sul, mudam os ingredientes, os temperos e as receitas — mas permanece uma riqueza extraordinária de frutas, verduras, legumes, grãos e preparações que ajudam a contar quem somos.
E, curiosamente, muitos deles carregam justamente as cores que mais associamos ao Brasil: o verde e o amarelo.
O verde da nossa biodiversidade
Quando pensamos nos alimentos verdes, encontramos uma enorme variedade disponível no país.
Couve, brócolis, rúcula, agrião, espinafre, alface, ora-pro-nóbis, abacate, limão, ervilha, vagem, quiabo, chuchu, pepino e tantas outras hortaliças e frutas fazem parte das diferentes cozinhas regionais brasileiras.
Nutricionalmente, os vegetais verdes podem fornecer fibras, folato, vitamina C, vitamina K, minerais e diferentes compostos bioativos, dependendo do alimento.
A couve é um belo exemplo. Presente em preparações tradicionais, especialmente acompanhando o feijão, ela mostra como um ingrediente simples pode reunir tradição, sabor e excelente densidade nutricional.
O verde também aparece nas ervas que dão personalidade à nossa cozinha: cheiro-verde, salsinha, cebolinha, coentro e outras folhas aromáticas que mudam conforme a região do país.
É um verde que não está apenas no prato. Está na nossa biodiversidade.
E o amarelo? Talvez seja uma das cores mais brasileiras da nossa alimentação
Milho.
Mandioca amarela.
Abóbora.
Manga.
Mamão.
Maracujá.
Abacaxi.
Banana.
Pequi.
Caju.
Frutas e vegetais amarelos e alaranjados podem oferecer nutrientes e compostos importantes, como carotenoides, vitamina C, fibras e antioxidantes, com composição variável entre os diferentes alimentos.
Mas existe algo ainda maior por trás deles: história.
O milho, por exemplo, atravessa gerações e aparece em pamonhas, curau, canjica, bolos, broas e tantas receitas regionais. A mandioca, em suas inúmeras formas, está profundamente ligada à formação da alimentação brasileira e à herança dos povos indígenas.
Talvez poucas coisas expressem tão bem nossa cultura quanto perceber que aquilo que hoje chamamos simplesmente de “comida brasileira” nasceu do encontro de muitos povos.
A culinária brasileira é feita de encontros
Nossa alimentação foi construída principalmente a partir das tradições dos povos indígenas, das influências trazidas pelos povos africanos e das diferentes correntes de imigração europeia, às quais posteriormente se somaram muitas outras culturas.
Cada região transformou ingredientes disponíveis em receitas, costumes e memórias.
Temos mandioca, milho, feijão, arroz, peixes, frutas tropicais, castanhas, ervas, raízes e uma diversidade imensa de produtos regionais.
Temos o açaí e o cupuaçu no Norte.
O dendê, o coco e tantas preparações marcantes no Nordeste.
O pequi e os frutos do Cerrado no Centro-Oeste.
A couve, o milho e inúmeras preparações no Sudeste.
E aqui no Sul temos ainda a influência indígena e, posteriormente, das imigrações italiana, alemã e de outros povos, que ajudaram a construir uma culinária muito particular.
Nossa comida é, portanto, uma espécie de retrato do Brasil.
Quanto mais colorido o prato, maior pode ser sua diversidade
Na Nutrição, costumo incentivar um princípio muito simples: coloque cores naturais no prato.
Não porque cada cor isoladamente tenha algum poder milagroso, mas porque variar os alimentos é uma maneira prática de aumentar a diversidade de nutrientes e compostos bioativos da alimentação.
Neste 7 de Setembro, podemos fazer um exercício diferente.
Que tal montar um prato verde e amarelo?
Uma salada de folhas verdes com manga.
Arroz com brócolis e abóbora assada.
Peixe acompanhado de legumes e couve.
Milho com ervas frescas.
Uma sobremesa com maracujá, abacaxi ou manga.
Ou simplesmente uma bela salada de frutas brasileiras.
Não precisamos transformar a alimentação saudável em algo complicado. Muitas vezes, ela começa justamente no alimento verdadeiro, colorido e reconhecível.
Valorizar a alimentação brasileira também é valorizar nossas raízes
Vivemos uma época em que alimentos, dietas e tendências chegam até nós de todas as partes do mundo. Conhecer novas culturas alimentares é maravilhoso, mas não deveríamos permitir que isso nos faça esquecer a riqueza que temos tão perto.
Temos alimentos extraordinários produzidos no Brasil.
Temos frutas em abundância, feijões de diferentes tipos, mandioca, milho, hortaliças, castanhas, sementes, pescados e ingredientes regionais que poderiam ocupar muito mais espaço na nossa alimentação cotidiana.
E existe também uma questão de sustentabilidade: valorizar alimentos locais, regionais e da estação pode aproximar nossa alimentação da produção do lugar onde vivemos, além de favorecer variedade e frescor.
Neste 7 de Setembro, coloque o Brasil no prato
Talvez celebrar a Independência também possa significar olhar com mais atenção para aquilo que nasce da nossa terra e para a história que chegou até a nossa mesa.
O verde das folhas, das ervas e dos vegetais.
O amarelo do milho, da manga, da abóbora, do maracujá e de tantas frutas brasileiras.
E, entre essas duas cores, uma infinidade de outros tons que representam a diversidade de um país imenso.
O Brasil também pode ser contado através da comida.
Da mandioca indígena às receitas de influência africana, das tradições trazidas pelos imigrantes às preparações que cada família transformou em suas próprias memórias, nossa culinária é resultado de encontros, adaptações e gerações.
Neste Dia da Independência, minha sugestão é simples:
abra a feira, a fruteira e a geladeira e procure o Brasil que existe ali.
Monte um prato colorido, escolha alimentos naturais, valorize os produtores da sua região e experimente novamente algum ingrediente que fez parte da sua infância.
Porque cuidar da saúde também é reconhecer nossas origens.
E poucas formas são tão saborosas de fazer isso quanto colocar mais verde, mais amarelo e mais Brasil à mesa.
Dra. Marlise Potrick Stefani
Nutrição Clínica e Integrativa | Especialista em Gerontologia | Especialista em Alimentação | Saúde da Mulher | Longevidade Saudável
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