Usei as canetinhas, emagreci… e agora?
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Como manter os resultados, recuperar a massa muscular e voltar a ter qualidade de vida após o tratamento depois dos 40+
As chamadas “canetinhas para emagrecer” revolucionaram o tratamento da obesidade e do excesso de peso. Medicamentos como Ozempic®, Wegovy®, Mounjaro® e outros agonistas do GLP-1 têm proporcionado uma perda de peso significativa, melhorando o controle glicêmico e reduzindo diversos fatores de risco para doenças cardiovasculares.
No entanto, existe uma pergunta que vem aparecendo cada vez mais no meu consultório.
“Doutora, eu emagreci. Mas o que eu faço quando precisar parar a medicação?”
Curiosamente, essa dúvida muitas vezes preocupa mais do que o próprio tratamento.
Depois de meses utilizando a medicação, muitas mulheres chegam felizes com o número da balança, mas decepcionadas ao se olharem no espelho.
Elas enxergam uma mulher mais magra, porém também mais envelhecida, com flacidez, perda de músculos, pouca força física, menor disposição e uma sensação de fragilidade que não imaginavam sentir.
E essa preocupação faz todo o sentido.
O emagrecimento não deveria significar apenas perder peso. O verdadeiro objetivo é conquistar saúde, preservar a massa muscular, manter a autonomia e envelhecer com qualidade de vida.
O que acontece com o corpo durante o uso das canetinhas?
As medicações para emagrecimento atuam reduzindo o apetite, aumentando a saciedade e diminuindo a velocidade do esvaziamento do estômago. Como consequência, a ingestão alimentar costuma diminuir bastante.
Isso facilita a perda de gordura corporal, mas também aumenta o risco de consumir menos proteínas, vitaminas e minerais do que o organismo realmente necessita.
Quando não existe acompanhamento nutricicional adequado, o organismo passa a utilizar também a massa muscular como fonte de energia.
É justamente aí que começam muitos dos problemas observados após o emagrecimento.
A perda de peso nem sempre significa perda de gordura
Um dos maiores equívocos é acreditar que todo o peso perdido corresponde à gordura corporal.
Na realidade, durante um processo de emagrecimento, podemos perder:
gordura corporal;
água;
glicogênio;
massa muscular.
Quando a perda de massa muscular é importante, surgem consequências que vão muito além da estética.
Entre elas estão:
redução da força física;
diminuição do metabolismo basal;
maior facilidade para recuperar o peso;
aumento da flacidez corporal;
piora da postura;
maior risco de quedas;
perda da disposição para atividades do dia a dia;
aceleração do processo de envelhecimento.
Por que isso preocupa ainda mais as mulheres após os 40 anos?
Durante o climatério e a menopausa, ocorre uma redução natural dos hormônios femininos.
Essa alteração favorece:
perda progressiva da massa muscular (sarcopenia);
aumento da gordura abdominal;
redução da densidade óssea;
diminuição da força;
alterações metabólicas.
Quando uma mulher nessa fase emagrece rapidamente sem preservar seus músculos, o impacto pode ser ainda maior.
É muito comum ouvir frases como:
“Meu rosto envelheceu.”
“Minha pele ficou caída.”
“Perdi o bumbum.”
“Perdi toda a força.”
Na verdade, muitas dessas mudanças são consequência da redução da massa magra e não apenas da perda de gordura.
O maior erro acontece quando o tratamento termina
Existe uma falsa ideia de que o tratamento termina quando a pessoa alcança o peso desejado.
Na prática, acontece exatamente o contrário.
É nesse momento que começa a fase mais importante.
Depois da retirada da medicação, o organismo precisa aprender novamente a regular a fome, reconhecer os sinais de saciedade e manter um padrão alimentar saudável.
Sem orientação, é muito comum ocorrer:
aumento gradual do apetite;
retorno dos antigos hábitos alimentares;
recuperação do peso perdido;
perda adicional de massa muscular;
frustração e sentimento de fracasso.
O problema não é parar a medicação.
O problema é parar também o acompanhamento.
Como evitar a perda de músculos durante o emagrecimento?
O tratamento ideal precisa ser construído sobre três pilares fundamentais.
1. Acompanhamento médico
O médico avalia a indicação da medicação, realiza os ajustes das doses e acompanha a evolução clínica.
2. Acompanhamento nutricional
A alimentação precisa ser planejada para garantir:
ingestão adequada de proteínas;
quantidade suficiente de vitaminas e minerais;
manutenção da massa muscular;
controle da inflamação;
preservação do metabolismo.
Também é fundamental realizar avaliações periódicas da composição corporal por meio da bioimpedância, permitindo acompanhar quanto do peso perdido corresponde realmente à gordura e quanto corresponde à massa muscular.
3. Exercício físico
O treinamento de força é um dos maiores aliados durante todo o tratamento.
Musculação, Funcional, Pilates, exercícios resistidos e outras modalidades ajudam a preservar músculos, proteger os ossos e melhorar o metabolismo.
O que fazer depois de parar as canetinhas?
Essa talvez seja a pergunta mais importante de todo o tratamento.
A resposta passa por uma mudança de foco.
O objetivo deixa de ser emagrecer.
O novo objetivo passa a ser manter os resultados conquistados.
Nessa fase, trabalhamos:
reorganização alimentar;
aumento gradual da ingestão proteica quando necessário;
recuperação da massa muscular;
fortalecimento físico;
ajuste do metabolismo;
manutenção do peso;
prevenção do efeito sanfona.
Em muitos casos, é justamente após o término da medicação que conseguimos reconstruir um corpo mais forte, mais funcional e metabolicamente mais saudável.
Perguntas frequentes
É normal perder músculos usando Ozempic®, Wegovy® ou Mounjaro®?
Pode acontecer, principalmente quando não existe ingestão adequada de proteínas, exercício físico e acompanhamento nutricional.
Vou recuperar todo o peso quando parar?
Não necessariamente.
Pessoas que mudam seus hábitos alimentares, preservam a massa muscular e continuam sendo acompanhadas apresentam muito mais chances de manter os resultados.
Como saber se perdi músculos?
A melhor forma é realizar uma avaliação de composição corporal por bioimpedância, que permite acompanhar separadamente gordura, massa muscular, água corporal e metabolismo. Ou a avaliação corporal completa com nutricionista.
Ainda vale a pena usar as canetinhas?
Quando bem indicadas pelo médico, essas medicações representam um enorme avanço no tratamento da obesidade.
Entretanto, elas nunca devem ser vistas como uma solução isolada.
O sucesso do tratamento depende da integração entre medicina, nutrição e atividade física.
O verdadeiro sucesso não está apenas na balança
No consultório, gosto de lembrar minhas pacientes de que ninguém procura um tratamento apenas para pesar menos.
As pessoas querem viver melhor.
Querem subir escadas sem cansaço.
Querem brincar com os netos.
Querem vestir uma roupa e se sentir bonitas.
Querem envelhecer com autonomia, força e disposição.
A balança mostra apenas um número.
Mas é a composição corporal que revela a verdadeira qualidade do emagrecimento.
Por isso, se você está utilizando ou pretende utilizar as chamadas “canetinhas”, lembre-se de que elas podem ser uma excelente ferramenta.
Mas o tratamento de verdade começa quando aprendemos a cuidar do corpo para muito além da perda de peso.
Porque emagrecer é apenas uma etapa.
Construir um corpo forte, saudável e preparado para envelhecer com qualidade é o objetivo que realmente vale a pena.
Dra. Marlise Potrick Stefani
Nutrição Clínica e Integrativa | Especialista em Gerontologia | Especialista em Alimentação | Saúde da Mulher | Longevidade Saudável
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