Dia dos Pais: muito além do exemplo — o pai como referência para toda a vida
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Quando pensamos no Dia dos Pais, é comum lembrarmos de abraços, presentes, almoços em família e homenagens. Mas talvez esta data também seja uma oportunidade para refletirmos sobre algo muito maior: qual é a influência de um pai na construção de uma pessoa?
Ser pai vai muito além de prover, proteger ou ensinar aquilo que considera certo. Desde muito cedo, a criança observa. Observa como o pai fala, como reage diante de um problema, como trata as pessoas, como demonstra — ou não demonstra — seus sentimentos, como trabalha, como descansa e até como se relaciona com a comida.
E existe algo particularmente importante nisso: muitas vezes, o pai nem percebe que está ensinando.
Ele simplesmente está vivendo.
Enquanto isso, alguém está aprendendo com ele.
A criança aprende muito mais pelo que vê do que pelo que escuta
Podemos dizer a uma criança inúmeras vezes que ela precisa comer verduras, praticar atividade física, respeitar as pessoas ou cuidar da própria saúde.
Mas o comportamento dos adultos que convivem com ela transmite uma mensagem muito poderosa.
Quando um pai senta à mesa e experimenta diferentes alimentos, quando valoriza uma refeição preparada em casa, quando bebe água, pratica atividade física e demonstra que cuidar da saúde faz parte da rotina, ele ajuda a construir uma percepção positiva sobre autocuidado.
O contrário também pode acontecer.
Frases repetidas como “eu não como isso”, “salada não é comida”, “homem não precisa se cuidar” ou a ideia de que procurar ajuda profissional é sinal de fraqueza também podem ser incorporadas pelos filhos.
Não significa que os filhos repetirão tudo aquilo que os pais fazem. Cada pessoa constrói sua própria história. Mas o ambiente familiar participa profundamente da formação dos hábitos e das referências que levamos para a vida.
O pai e a construção da relação com a alimentação
Na nutrição, falamos muito sobre a importância dos primeiros anos de vida para a formação dos hábitos alimentares.
Porém, às vezes esquecemos de uma questão fundamental: quem está sentado à mesa com essa criança?
A alimentação não acontece apenas no prato.
Ela acontece no ambiente.
Na conversa.
Na forma como os alimentos são apresentados.
Na relação que a família estabelece com o corpo.
Na maneira como os adultos falam sobre peso, saúde, prazer e culpa.
Um pai que participa das refeições e demonstra uma relação equilibrada com a alimentação pode contribuir para que seu filho compreenda que comer bem não significa viver de restrições.
Significa aprender a fazer escolhas.
Significa entender que existem alimentos para nutrir e também momentos de celebração e prazer.
Significa perceber que saúde se constrói na rotina, e não através de comportamentos extremos.
Na adolescência, o exemplo começa a ser questionado
Chega a adolescência e, aparentemente, aquele pai que era uma grande referência passa a ser questionado.
Isso faz parte do desenvolvimento.
O adolescente precisa descobrir quem é, construir suas próprias opiniões e, muitas vezes, discordar dos pais para encontrar sua identidade.
Mas não devemos confundir questionamento com ausência de influência.
Mesmo quando o adolescente parece não ouvir, ele continua observando.
Como o pai enfrenta uma dificuldade?
Como reage quando erra?
Sabe pedir desculpas?
Respeita quem pensa diferente?
Cuida de sua saúde?
Como se relaciona com o trabalho, com o dinheiro, com a família e com o próprio envelhecimento?
São aprendizados que dificilmente cabem em uma palestra.
Eles acontecem dentro de casa.
E quando os filhos se tornam adultos?
Talvez seja justamente na vida adulta que começamos a compreender melhor a dimensão da influência dos nossos pais.
De repente, nos percebemos repetindo uma frase.
Preparando uma receita.
Organizando a mesa de determinada maneira.
Tomando uma decisão e pensando: “Meu pai faria assim.”
Também podemos perceber comportamentos dos quais decidimos seguir por outro caminho. Isso igualmente faz parte do amadurecimento.
Pais não precisam ser perfeitos para serem importantes.
Aliás, nenhum pai será.
O que realmente deixa marcas positivas é a capacidade de estar presente, reconhecer erros, aprender, mudar e demonstrar através das atitudes os valores que deseja transmitir.
O pai também ensina quando decide cuidar de si
Existe ainda uma mensagem que considero especialmente importante neste Dia dos Pais.
Durante muitas gerações, os homens foram ensinados a serem fortes, provedores e resistentes. Cuidar da saúde muitas vezes ficava em segundo plano.
Consultas eram adiadas.
Exames eram postergados.
A alimentação era negligenciada.
O descanso parecia perda de tempo.
Hoje precisamos transformar esse conceito.
Cuidar-se também é uma forma de cuidar dos filhos.
Quando um pai decide controlar sua pressão arterial, melhorar sua alimentação, movimentar o corpo, dormir melhor, reduzir excessos e realizar seus exames preventivos, não está cuidando apenas do presente.
Está dizendo aos filhos:
“Minha vida importa. Quero estar aqui. Quero envelhecer com vocês.”
Talvez esse seja um dos exemplos mais bonitos que podemos oferecer.
O exemplo atravessa gerações
Existe um momento especial da vida em que essa história ganha uma nova dimensão: quando aquele filho ou filha se torna pai ou mãe.
Então muitas coisas começam a fazer sentido.
Algumas atitudes são repetidas.
Outras são transformadas.
Algumas lembranças são resgatadas com carinho.
E aquilo que começou entre pai e filho passa para uma nova geração.
É assim que construímos legados.
Não apenas através de bens ou sobrenomes, mas por meio de hábitos, valores, afetos, refeições compartilhadas, histórias e maneiras de enxergar a vida.
Neste Dia dos Pais, uma pergunta vale mais do que um presente
Que exemplo estamos deixando?
Não precisamos buscar perfeição.
Precisamos buscar consciência.
Porque uma criança pode esquecer muitos dos conselhos que ouviu, mas dificilmente deixa de ser influenciada pela maneira como viu seus pais viverem.
O pai talvez não perceba, enquanto escolhe o que coloca no prato, como trata sua família, como enfrenta um problema ou como cuida da própria saúde, que existe alguém aprendendo com aquelas pequenas atitudes.
Primeiro, uma criança observa.
Depois, um adolescente questiona.
Mais tarde, um adulto compreende.
E, muitas vezes, anos depois, ele percebe que carrega um pouco daquele pai na maneira de falar, pensar, amar, cuidar e até de se alimentar.
Neste Dia dos Pais, mais do que homenagear quem nos ensinou tantas coisas, talvez seja o momento de agradecer a quem, mesmo sem perceber, ajudou a construir parte de quem somos.
Feliz Dia dos Pais!Saúde, cuidado e escolhas que atravessam gerações.
Dra. Marlise Potrick Stefani
Nutrição Clínica e Integrativa | Especialista em Gerontologia | Especialista em Alimentação | Saúde da Mulher | Longevidade Saudável
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